Duchamp for Dummies
Julho 16, 2008

Arte?
Sabe aquela piadinha sobre o extintor na galeria de arte? Ela não existiria sem o trabalho de Marcel Duchamp. Ícone da arte contemporânea, o artista foi o escolhido para comemorar os 60 anos do MAM-SP. A exposição “Marcel Duchamp: uma obra que não é uma obra ‘de arte’” abriu ontem, dia 15 e fica no museu até 21 de setembro. A curadora Elena Filipovic, co-curadora da Bienal de Berlim e especializada na obra do artista explica direitinho tudo o que você finge saber sobre Duchamp na mesa de bar. Olha só:
O que uma pessoa que não entende nada de arte deve saber sobre Duchamp?
Duchamp era muito enigmático. Qualquer imagem que eu criasse sobre ele seria contraditória e cheia de paradoxos. Por exemplo, ele criticou o fato de que pintores só estavam interessados no apelo visual e não mental, e depois passou anos construindo artifícios óticos, máquinas que manipulavam a visão. Ele respondia às pessoas que perguntassem o que ele estava fazendo, ou qual era sua ocupação na vida, que ele era apenas um “respirador”. Ele era obcecado por xadrez, isso é fato. Passou a maior parte dos 8 anos em que morou em Buenos Aires jogando. Além disso, era incrivelmente escrupuloso, mesmo se descrevendo como preguiçoso e desinteressado no trabalho e em fazer arte, mas a realidade é que ele estava muito cuidadosamente produzindo obras de arte e deliberadamente obscurecendo o limite entre o que é arte e o que não é. Acima de tudo, o que às vezes esquecemos por ele ser um gigante da arte moderna e contemporânea, é que ele era também muito engraçado.
Qual a importância do artista?
Marcel Duchamp é considerado o mais importante e influente artista dos séculos XX e XXI pelos mais respeitados escritores, críticos, artistas e pensadores de hoje. E ainda, capturando a idéia de por que exatamente esse é o caso e como ele pode ter - 50 anos antes de todo mundo - delineado as idéias com que muitos artistas ainda estariam brincando não é muito fácil. A história do artista é contada em livros de história da arte e sua influência em tantos movimentos que vieram depois dele - desde a Arte Conceitual, Pop Art, Installation Art, até Crítica Institucional - são bem sabidas, mas vendo um panorama de alguns objetos que Duchamp fez, copiou ou autorizou é um ponto inicial necessário para entender que apesar de ser um homem de idéias, Duchamp as expressou em detalhe - em notinhas rascunhadas, em paradoxalmente reproduções artesanais de seu próprio trabalho, na engraçada empreitada de dar bigode e barba à Mona Lisa, na estranheza de uma “pintura” em vidro de uma noiva, um monte de máquinas, e alguns solteiros frustrados. A América Latina nunca teve uma exposição tão grande do trabalho de Duchamp, e o fato de uma acontecer agora é um evento de proporções históricas - uma oportunidade que provavelmente não se repetirá por pelo menos algumas década.
Duchamp discute os limites do que é e o que não é uma obra de arte. Ele chegou a uma resposta? A exposição responde a essa pergunta?
Eu diria que ele passou a vida toda tentando dar respostas a essa questão, e a exposição procura mostrar isso.
Ele chegou a fazer reproduções das próprias obras. O preço de um original do artista é o mesmo de suas reproduções?
A questão é bem complicado pois a linha entre original e reprodução é muito indistinta quando se trata das obras de Duchamp. Por exemplo, os ready-mades originais não existem mais. Todos foram perdidos ou destruídos. Uma série de réplicas foram feitas em 1964 por Duchamp com Arturo Schwarz, um galerista de Milão. E fizeram apenas 8 cópias de cada ready-made. Estes são agora muito valiosos e são, em um sentido, “originais”, sendo que não há outro original desse trabalho que exista. Ele também fez cópias minúsculas de sua arte e colocou em uma caixa, chamando-a de seu “museu portátil”. Ele fez 300 dessas caixas de cópias mas também fez 20 do que ele chama edição de luxo desses mini museus. Ambos são muito valiosos hoje em dia mas a versão de luxo o são ainda mais pois são extremamente raras e estão recheadas de cópias mas também cada uma contém uma obra “original”. Então você vê, Duchamp estava constantemente brincando com a idéia de original e cópia, tentando confundir as claras distinções que o mercado artístico faz delas.
É verdade que ele tinha um atelier secreto? Pra quê?
É verdade que por 20 anos ele de fato alugou um estúdio secreto para construir sua gigante instalação Etant donnés… Ele não queria que ninguém soubesse dela até sua morte, e funcionou. Quase ninguém a não ser sua mulher e um ou dois amigos próximos sabiam. E até alguns outros amigos mais próximos ficaram surpresos quando souberam que ele havia trabalhado todo aquele tempo. Ele disse a cada um deles que havia desistido de fazer arte e estava apenas jogando xadrez. Era parte de seu humor mas também parte de seu enigma que o levou a fazer isso. Ele queria que Etant donnés… existisse e só fosse vista em um museu, o que era uma parte muito importante do modo como as obras de arte funcionam. É uma obra voyeurística em que o visitante que a contempla quase se sente envergonhado de fazê-lo. Então mantendo-a secreta, ele tinha certeza que só seria vista em um museu e após sua morte, e não antes disso.
Quais os brasileiros mais influenciados pelo artista?
Há muitos, muitos artistas que foram influenciados pelo trabalho de Duchamp, desde Helio Oticia e Lygia Clark a Cildo Meireles. E cada um deles olhou para algo diferente e foi inspirado por um aspecto diferente da obra de Duchamp. Mas eu diria que um dos melhores jeitos de medir o impacto da influência de Duchamp é pela lindíssima pequena exibição, “Duchamp-Me”, de curadoria de Felipe Chaimovich, que coincidiu com a exposição de Duchamp no espaço maior do MAM. Lá você pode ver o trabalho de muitos artistas brasileiros que foram inspirados por ele ou que reinterpretaram algumas das idéias de Duchamp.
É possível afirmar que Duchamp inaugura a arte contemporânea?
Sim, eu diria que, para mim, Duchamp é o primeiro verdadeiro artista contemporâneio e isso é talvez o motivo de ele ser tão importante para a arte, para a história e para artistas hoje. Sua influência tem sido enorme para artistas de muitas gerações e movimentos tão diversos como a Pop Art, a Arte Conceitual, a Crítica Institucional, etc. E cada um pega algo diferente como inspiração. Eu espero que a mostra ajude as pessoas a enxergarem isso.
Julho 17, 2008 às 5:11 am
Então o extintor era obra?