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R.I.P. Estamira

Triste e indignado, o diretor Marcos Prado fala sobre a morte da catadora com a qual conviveu durante 4 anos para fazer o documentário Estamira:

Como ficou sabendo da morte de Estamira?

Ela estava com 72 anos. O filho dela havia me ligado há uns dias pra dizer que o braço dela estava inflamado. Foi a um hospital público, mas a mandaram pra casa. Nos próximos dias ela piorou e eu pedi que a levassem para o Hospital  Miguel Couto. Ela ficou esperando muito tempo nos corredores e não foi atendida. Um absurdo. Ela já estava mal com uma infecção e o quadro piorou rápido, até a morte. Estou indignado, isso não pode continuar acontecendo…

Quando você descobriu Dona Estamira?

Tinha um projeto de fotodocumentário há 7 anos nos aterros sanitários com uma bolsa da Funart. Fui ao lixão e passei muito tempo fazendo registros que resultaram no livro Jardim Damacho. Eu havia sido ameaçado de morte por ex presidiários e outros tipos que dominam o lugar, então resolvi fotografar crianças e idosos que trabalhavam por lá. Foi quando conheci dona Estamira.

Como foi o primeiro contato?

Perguntei: Posso fazer uma foto sua? Ela respondeu: Pode, mas depois senta aqui que eu quero falar com você. Naquele momento tomei contato com aquela cosmologia toda, com aquela força especial. Ela dizia que o lixão era o lugar que ela mais amava no mundo. Me apaixonei e ela acabou virando minha avozinha, uma pessoa que eu queria cuidar.

 Qual sua lembrança mais marcante em relação a ela?

Depois que a conheci não consegui tirar aquela figura da cabeça. Queria descobrir quem era aquela pessoa, como ela havia parado ali. Várias sincronicidades aconteceram desde que a encontrei, então não pude mais parar. Fui ao lixão procura-la bem no dia em que ela havia sido apedrejada depois de delatar catadores jovens que roubavam o material dos outros mais velhos. Ela teve que passar 20 dias internada, e naquela época um enfermeiro a identificou como louca. Ela passou a tomar remédios tarja preta, e misturava com a cachaça. Até eu, se vivesse naquele ambiente tomaria uma cachaça.

Você achava que ela era louca?

Acho que ela era uma entidade, uma espiritualista. Estive com ela durante 4 anos de filmagens e posso dizer que era uma pessoa como eu e você.

Qual foi a reação dela ao ver o filme?

Ela dizia que a missão dela era esfregar a verdade na cara dos outros, e que a minha era mostrar. Quando acabou de ver o filme ela disse que não se lembrava de alguma coisa, mas que se reconhecia integralmente ali.

3 Comments

  1. Lucas Souza RJ says

    Estamira marcou a minha vida. Recito pra mim mesmo suas palavras. Vejo um mundo todo novo desde que a conheci através do filme. Uma estrela, é assim que vou lembrá-la pra sempre. Marcos, muito obrigado por trazê-la pra todos nós. Todo mundo, ou universo, que houver necessita da verdade de Estamira.

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