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.Don’t Call it Cool.

Apaixonado por retratar adolescentes, David Mushegain expõe sua fotografias na Colette até 27 de agosto. Ele é também o curador de instalações e workshops de música e arte que acontecerão na loja francesa. A idéia é criar uma ponte entre a cultura jovem de Paris e NY. Se você não está em Paris, aqui vai um gostinho da expo e uma entrevista que ele deu a este blog:

Onde você mora hoje e qual foi a última foto que você tirou?
No momento estou em Tóquio, mas vivo entre LA, NY, Paris e Londres. LA é minha casa, onde fica minha família. A última foto que tirei foi da banda Red Hot Chilli Peppers, em um estúdio de TV japonês. Anthony é um dos meus melhores amigos e amanhã vamos a Osaka. Estou louco para fotografar o público do show deles.

Você é conhecido por retratar especialmente bem o tal do “teen spirit”. Porque acha que o tema é marcante para você?
Sinto a mesma curiosidade sobre a vida que os adolescentes sentem. Gosto da vontade que eles têm por se aventurar e descobrir coisas. Ao longo do tempo encontrei muitas pessoas que me encorajaram, e eu gosto de estar perto desses jovens e fazer a mesma coisa com eles. Nunca ninguém pegou na minha mão e me deu uma boa oportunidade. Eu sempre tive que lutar por tudo o que fiz, e continuo lutando. Gosto de dar as chances que eu nunca tive a alguns jovens, mas sinto que essa atitude pode ter resultados contraditórios. Aprecio o trabalho duro e noto que algumas pessoas que recebem uma boa ajuda quando estão no início da carreira passam a achar que tudo vai acontecer para elas, que não precisam suar a camisa. Há muito hype em torno de ser um artista, e muitas pessoas querendo mais parecer “cool” do que realmente trabalhar essa benção que é a criatividade.

Qual foi a melhor época da sua vida?
Quando terminei os estudos na escola. Eu achava aquele ambiente muito claustrofóbico, não penso que trancar jovens em salas é a melhor forma de os preparar para a vida. Acho que o fim da minha adolescência foi muito divertido porque eu pude explorar minha mente e minha espiritualidade. Aos vinte e poucos anos trabalhei como artista de rua. Foi assim que comecei a prestar atenção nas pessoas. Passei a escrever sobre elas, fotografa-las e me sentia abençoado por conhecer aquela gente. Hoje tenho 35 anos e posso dizer que realmente vivi esses 35 anos na Terra.

Quando começou a tirar fotos?
Foi durante as viagens. Eu acabava de fazer as performances na rua tarde da noite e como não tinha nada para fazer passei a fotografar manequins nas vitrines das lojas. Eu tinha ido ao Peru. Eu e meus amigos tínhamos cavalos e um circo armado por lá. Resolvi voltar para LA no meu aniversário para ver minha família e pensar o que seria da minha vida. Foi nessa época que o 11 de setembro aconteceu e toda a noção de viajar mudou para sempre. Antes as passagens eram baratas e decolar não era tão complicado. Eu passeava tranquilamente pelo Iran e Paquistão, e agora tudo estava diferente. Lembro de encontrar um amigo paulistano em NY. Passei um tempo por lá com ele, que morava perto do museu PS1 e fui até lá levar minhas fotos. Conheci a diretora Alana Heiss e foi quando tudo mudou. Ela me fez acreditar nesse trabalho.

Quem te ensinou a fotografar? Você teve algum tutor?
Aprendi fazendo. Nunca fui assistente e nem estudei fotografia. Acho que esse ofício é como o surf. Sempre que alguém me pede para ensinar eu levo até a praia, ensino a remada e digo: o resto é com você. A pessoa vai tomar muita onda na cabeça, vai sofrer, mas vai aprender a se virar e descobrir que para ser bom é preciso praticar todos os dias. Mas tenho um mentor, que é o diretor criativo da Vogue Japão, o Gene Krell. Ele é casado com uma mulher tão linda e tão inteligente. Ela diz que a vida é “plus-minus-zero”, cheia de acontecimentos positivos e negativos, mas que no final do dia temos a oportunidade de voltar ao zero.

Quem vivo ou morto você gostaria de fotografar enquanto adolescente?
Nossa, adorei essa pergunta! Adoraria fotografar os jovens dos anos 30 aos 70. Adoraria retratar o jovem Jimi Hendrix, mas seria muito legal mesmo fazer uma foto de Jesus adolescente

O que vem a sua cabeça quando pensa no Brasil?
Penso em transito e noites quentes. Penso nas praias de Camburi, na Baleia, em dançar forró. Penso na força dos tambores do carnaval de Salvador. Penso em fazer amor na areia de Caraíva, e na vontade de morar em Trancoso quando ela ainda era desabitada. Penso na delícia que era sentar na montanha da Guarda do Embaú e olhar as pessoas cruzando o rio. Penso em quão importante e forte a família é para vocês e no desejo de que isso nunca mude. Sei que viver aí pode ser difícil, mas vocês colocam tanto coração no que fazem que nada pode dar errado. Sempre que vou ao Brasil acho que minha família era mais feliz quando éramos mais pobres. A família se unia para comer e ouvir música. Hoje cada um tem a sua casa, sua TV, e só nos encontramos no Natal.

 Qual sua camera favorite? Você usa digital?
Gosto da Hasselbad com back digital. Mas ainda adoro o filme, médio formato é demais.

Como foi a sua adolescência? Você foi um garoto-problema?
No início acho que sufoquei minha verdadeira identidade. Crescer em LA é complicado porque você tem que lidar com questões como pertencer a uma gangue e é levado a ter um comportamento destrutivo como com as drogas, para provar que tem personalidade. Acho que perdi muito tempo tentando provar que era durão, perdi noites nas ruas fumando cigarros e isso é muito imbecil. No fundo sempre fui amoroso.  Mas também me diverti bastante entre 1989 e 1993 porque adorava música eletrônica e ia a muitas raves.

Aos 15 comecei a viajar porque estava tendo problemas na escola. Eles me mandaram para o México para morar com um primo que tinha 17 anos e foi uma loucura. Na minha segunda noite por lá fiquei tão bêbado que não consegui voltar para casa. Cheguei na manhã do dia seguinte e meu primo ficou tão louco de preocupação que me deu um soco na cara. Parece uma coisa ruim, mas foi naquele dia que eu percebi que teria que crescer e ter um rumo na vida. Meu pai e avô tinham um ferro velho de caminhões, na minha família eram todos homens guerreiros, ser homem era o oposto de ser vagabundo. E eu não queria ser um vagabundo. Aos 16 conheci a banda Grateful Dead e tudo mudou porque me identifiquei com o que eles tinham a dizer. Me acalmei, parei de ser expulso das escolas e fiz novos amigos.

Passei um tempo no Brasil e vi que o mesmo acontece por aí. Vocês tem uma vida dura e os garotos acabam se unindo em tribos e gangues. Somos animais crescendo em grandes cidades. Nossos instintos são oprimidos e como não temos nada a fazer com eles liberamos tudo em forma de problema. Queria que eles soubessem que liberar essa energia em atividades como o surf ou a arte é muito melhor do que fazer merda por aí.

Aos 19 meu melhor amigo teve uma overdose de heroína. Ele sobreviveu, não aprendeu a lição e morreu no ano seguinte. Quase fui pelo mesmo caminho, mas no fim das contas terminei minha juventude de um aforma muito fértil. Eu tinha dreadlocks nos cabelos e uma mochila cheia de curiosidade.

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